| Reforma
política é indispensável para
os rumos do País
A reforma
política em discussão nos meios políticos,
trabalhistas,
empresariais e acadêmicos - uma tese que vem
tomando corpo e deverá se
materializar nesse segundo mandato do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva -
é algo fundamental e indispensável para
a modernização do País. Com regras
e
programas partidários claramente definidas
que podem emergir de uma reforma
política, fica mais fácil planejar o
presente e o futuro, uma vez que se
saberá para onde o Brasil está caminhando.
A opinião é do presidente da ASSIMPI
Associação Nacional dos SIMPI, Joseph
Couri, para quem o Brasil "se cansou
de um modelo político-partidário em
que as pessoas se elegem, esquecem os
compromissos, rasgam e jogam fora as promessas feitas,
sem qualquer lastro
com uma filosofia ou linha programática séria".
Curi destacou também o
programa de coalizão, que vem sendo discutido
pelo presidente da República
reeleito com o PMDB e outros partidos, como da maior
importância para a
governabilidade.
A seguir,
em entrevista, o presidente do Simpi, Joseph Couri,
expõe suas
idéias sobre alguns temas e projetos que estarão
sendo discutidos e deverão
ser encaminhados durante o novo Governo Lula, relacionando-os
com seus
reflexos para a vida da micro e pequena empresa brasileira:
P - Como o Simpi analisa a perspectiva de uma reforma
política no País, que
partidos e governo ensaiam para o primeiro semestre
de 2007?
Joseph Couri: Em primeiro lugar,
achamos absolutamente necessário e absolutamente
indispensável uma ampla e profunda reforma
política. A bem da verdade, ela já começou
a ocorrer, ante a redução do número
de partidos por meio da
"cláusula de barreira" - ali já
está o início de uma reforma política.
No entanto, ela precisa se aprofundar, e muito. Isto
porque entendo que o País inteiro está
cansado de pessoas que se elegem e, logo depois que
se elegeram, esquecem os compromissos, rasgam e jogam
fora compromissos partidários, não têm
nenhum lastro partidário, filosófico
ou ideológico. Enfim, existe um total descolamento
de compromisso de muitos políticos com a realidade
do nosso País. Uma reforma política
é, portanto, muito necessária, exatamente
para que haja um comprometimento mais profundo sobre
os rumos do País. Assim, as pessoas podem votar
conscientemente, sabendo que elas terão um
programa, uma filosofia, uma linha político-partidária.
Isso do lado do eleitor. Do lado do comprometimento
com a nação, com a reforma política
vai-se ter uma ideologia na prática sendo feita
em cada votação. E poderemos ter daí
um projeto de país, como um todo, com linhas
políticas claramente definidas, com programas
claramente definidos. A partir daí, é
a vontade do povo em eleger ou não aquelas
linhas, aquelas mudanças propostas, ou a
manutenção de políticas existentes.
P
- O presidente Lula tem dito que quer começar
um novo governo dentro de um
sistema de coalizão com outros partidos, como
o PMDB. Como a pequena empresa
está vendo isso?
Joseph Couri: Acho que o que estamos
colocando em jogo é a governabilidade e que,
em hipótese alguma, ela pode ser afetada. É
absolutamente indispensável que
haja essa coa0lizão, como é indispensável
que situação e oposição
possam
andar juntas para o bem do País.Quero dar um
exemplo de que isso é possível:
a aprovação da Lei Geral da Micro e
Pequena Empresa conseguiu unir situação
e oposição num Projeto Brasil. E é
isso que esperamos de todos aqueles que
foram eleitos, independente de seu partido ou de sua
coloração partidária.
P - Em
relação a uma possível reforma
da Previdência Social, o Simpi tem
manifestado uma preocupação quanto à
necessidade de mecanismos que estimulem
aqueles que estão na informalidade a virem
para o mercado formal de
trabalho, não é?
Joseph
Couri: Sim. Quando falamos de marcos regulatórios,
estamos falando também da diferença
entre a formalidade e a informalidade na economia
brasileira.Quando falamos da informalidade, na verdade
temos dois aspectos: o econômico, que é
possível superar com planejamento tributário,
com perdões, anistia e reparcelamentos etc.
Agora, o aspecto que jamais é apagado é
o criminal: e quando se está na informalidade,
ou seja, na ilegalidade, está-se cometendo
crimes. E esses crimes são impossíveis
de serem superados com a legislação
vigente. E é isto que precisa ser mudado na
legislação, tanto previdenciária
quanto trabalhista e até criminal. Vou dar
um exemplo: se você tem um trabalhador sem registro
em carteira, você cometeu um crime; se deixou
de recolher impostos, cometeu outro crime; e assim
por diante. O fato é que esses crimes não
acabam mesmo o pagamento dos impostos ou com o registro
em carteira do trabalhador. Este é um dos grandes
motivos, pelo qual quem está na informalidade
vai continuar até que haja mudança da
legislação.
P
- E para resolver esse passado dos crimes na informalidade,
como o sr.
denomina, não basta uma anistia?
Joseph Couri: Não, creio que
seria necessária uma mudança dos marcos
regulatórios. A anistia pode atingir o aspecto
econômico, mas, no aspecto criminal não
sei se podemos ter anistia, talvez precisemos consultar
nossos juristas
brasileiros. Caso possa haver aí uma anistia
criminal, talvez seja solução.
P
- O índice de criminalidade em São Paulo
cresce a cada dia. Como é que as
micros e pequenas empresas, responsáveis por
grande parte da geração de
empregos no País e em São Paulo, em
especial, poderiam ajudar a reduzir
esse grave problema social?
Joseph Couri: Na verdade, se voltarmos
na história, vamos dizer que a solução,
mais
ou menos óbvia, é o pleno emprego. Quando
vivemos o Plano Cruzado, o Brasil
viveu um momento de pleno emprego, e foi um momento
na história com os
menores índices de criminalidade registrados
no País. O que vem provar que o
que o povo quer é o direito à dignidade,
direito de ganhar o seu dinheiro
honestamente. E como fazer isso? Trabalhando. Agora,
a hora em que lhe é
negada a cidadania, quando é jogado para a
economia informal; a hora em que
lhe é negado o direito a sobrevier com dignidade,
ganhando o pão de cada dia
através do trabalho, o que se está fazendo:
você está empurrando essas
pessoas para o crime. E uma vez que elas estão
no crime; elas entram e não
saem mais. Este é o cenário que precisamos
mudar no Brasil: precisamos
buscar, sim, crescimento econômico e, com ele,
o pleno emprego. E qual o
lugar mais fácil de se gerar empregos? Com
políticas de apoio a esse
segmento, dentre as quais a Lei Geral da Micro e Pequena
é um bom passo
nessa direção. Outros passos precisam
ser dados. Sem dúvida, e de forma
forte e urgente. Por exemplo: essa legislação
para acabar com o aspecto
criminal da informalidade. Aí, sim, você
vai incentivar as pessoas a andar
na lei. Outras medidas necessárias são
uma carga tributária cada vez menor,
incentivos à produção - são
coisas que fazem com que haja crescimento
econômico. Sem isso, estaremos nos voltando
contra a história, e aí não há
jeito de se mudar um cenário que não
seja esse de informalidade e
criminalidade andando juntas.

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